Do Diário do Comércio
A cidade de São Paulo tem visto crescer o número de parklets — estruturas que ampliam o espaço das calçadas e criam áreas de convivência em frente a estabelecimentos. Atualmente, são cerca de 215 parklets instalados, sendo que 74 novas estruturas foram implementadas em 2025 e já há nove pedidos formalizados para 2026, segundo a Secretaria Municipal das Subprefeituras.
Esse avanço recente ajuda a explicar por que cada vez mais empresários têm apostado nesse modelo, principalmente na região central, onde o fluxo de pessoas e a dinâmica urbana favorecem o uso desses espaços.
Na prática, a decisão de instalar um parklet costuma surgir de uma necessidade comum: falta de espaço e organização na calçada.
No caso da Sorveteria Cangote, o aumento do movimento foi determinante. Segundo o proprietário Anderson Maciel Boeira, o local passou a receber um fluxo intenso, chegando a cerca de mil pessoas aos fins de semana, o que tornava o espaço insuficiente e até perigoso.
Ele relata que carros grandes parados na porta dificultavam a circulação e que havia ocupação desorganizada da rua, além da presença de públicos que demandam mais acessibilidade, como idosos, pessoas com dificuldade de locomoção e famílias com crianças.
“Hoje vemos as pessoas ficarem mais tempo no local, sentarem, conversarem e as pessoas com dificuldade de locomoção, idosos e famílias com crianças poderem tomar o seu sorvete com mais tranquilidade”, diz Anderson.
Thiago Jun, mais conhecido como Vex, do Ooey Cookie, estabelecimento vizinho da sorveteria, que dividiu os custos da instalação do parklet com ele, compartilha da opinião. Segundo ele, o espaço trouxe mais conforto e segurança, além de incentivar os clientes a permanecerem mais tempo consumindo no local.
Projeto amplia experiência do cliente
Além de resolver questões práticas, os parklets também têm impacto direto na experiência do cliente.
No caso da Cangote, não houve mudança no serviço em si, mas sim na comodidade. Segundo Anderson, antes muitas pessoas desistiam ao ver o local cheio e sem espaço para aguardar o atendimento de forma confortável. Agora, conseguem sentar e esperar. Ele também afirma que houve aumento na permanência e que o retorno do público tem sido bastante positivo, com elogios e maior inclusão, especialmente de clientes que antes tinham dificuldade de frequentar o espaço.
Thiago reforça esse ponto ao destacar que o ambiente incentiva as pessoas a ficarem mais tempo, consumindo mais de um item — como café e cookie — e interagindo no local. Segundo ele, o parklet também melhora o acolhimento de pessoas com mobilidade reduzida.
Já no Saints Laundry Coffee, o objetivo foi ampliar a experiência para além do interior da loja. Segundo o proprietário Pedro Borin Santana, a ideia era atrair o olhar do cliente e incentivá-lo a permanecer mais tempo fora do celular, aproveitando o ambiente externo.
Apesar disso, ele afirma que ainda é cedo para medir impacto em movimento ou permanência, já que o parklet foi instalado há cerca de três meses.
2 anos de espera e investimento a partir de R$ 20 mil
Embora os benefícios sejam claros para muitos empresários, o caminho até a instalação pode ser longo e exigir investimento.
Tanto Anderson quanto Pedro relatam que o processo levou cerca de dois anos até a aprovação.
No caso da Cangote, foi necessário desenvolver um projeto técnico, contratar arquiteto e despachante, além de atender a uma série de exigências, como dimensões, sinalização e análise de elementos urbanos (disposição das árvores, placas e inclinação da via, por exemplo).
O investimento também é relevante. Apesar de a prefeitura afirmar em nota que “não há preço público estabelecido para a instalação de parklet”, Anderson afirma que os orçamentos variam entre R$ 20 mil e R$ 30 mil, dependendo do tamanho e da estrutura.
Por outro lado, não há cobrança de aluguel mensal pelo uso do espaço, e o termo de cooperação tem duração de dois anos, sendo necessária renovação após esse período. A solicitação deve ser feita por meio de processo administrativo diretamente na Subprefeitura da região.
Apesar de estarem associados aos estabelecimentos, os parklets são espaços públicos e podem ser utilizados por qualquer pessoa. Os três empresários dizem que, mesmo sendo um espaço público, a maioria dos frequentadores é cliente.
Tendência segue comportamento de urbanização
O conceito de parklet não é novo, mas ganhou força recentemente, analisa Mauricio Mezalira, consultor de negócios do Sebrae-SP.
O movimento começou na década passada, mas sem tanta relevância quanto agora, lembra ele. “Porém, muitos desses parklets continuam ativos, o que mostra certa consistência do modelo. Um dos fatores que impulsionaram essa expansão foi a pandemia, que fez as pessoas valorizarem mais o ato de sair de casa e conviver em espaços abertos.”
A região central, especialmente bairros como a Vila Buarque, tem concentrado esse movimento, segundo Mauricio.
“São bairros que começaram a atrair moradores de estúdios e com fácil acesso ao transporte público. É um público que não é tão dependente de carro e tende a valorizar espaços de convivência”, destaca ele.
Não é para todos, mas com oportunidades
Apesar do crescimento, Mezalira pondera que o modelo não funciona para todos os negócios.
Segundo ele, há risco envolvido e o investimento precisa ser bem avaliado. Ainda assim, destaca que há casos positivos em outras regiões da cidade, como na zona leste, especialmente no Tatuapé, onde empresários que apostaram no formato tiveram bons resultados.
Ele também ressalta que tendências de negócios costumam ter ciclos — em média de três anos —, o que exige atenção dos empreendedores ao momento e ao perfil do público. Porém, na avaliação dele, os parklets indicam uma mudança mais estrutural na forma de ocupar a cidade e tendem a permanecer no cenário urbano.
Como solicitar a instalação de um parklet em São Paulo
A implantação de parklets na cidade segue um processo administrativo definido pela Prefeitura de São Paulo. Veja o passo a passo:
Onde solicitar
O pedido deve ser feito diretamente na subprefeitura responsável pela região onde o parklet será instalado. O órgão é o único interlocutor do processo.
Se necessário, a subprefeitura pode consultar outros órgãos técnicos, como a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU) e o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp).
Prazos de aprovação
Após o envio da solicitação com toda a documentação exigida, a subprefeitura tem até cinco dias úteis para dar um retorno inicial. Com a publicação do edital para dar conhecimento público ao pedido, o solicitante deve afixá-lo no local por um período de dez dias.
Caso não haja manifestações contrárias, é firmado um termo de cooperação que autoriza a instalação do parklet por até três anos.
Possibilidade de contestação
Mesmo após a aprovação, o processo ainda pode ser contestado.
A decisão da subprefeitura é divulgada publicamente, incluindo publicação no Diário Oficial da Cidade e no portal da prefeitura. A partir disso, abre-se um prazo de dez dias úteis para eventuais reclamações.
Se houver interesse de outro proponente na mesma área, ele tem até 30 dias para apresentar um novo pedido completo.
Nesses casos, cabe à subprefeitura analisar as propostas e decidir, de forma fundamentada, qual delas melhor atende ao interesse público.